O ato de se apaixonar por alguém de fora do nosso ambiente original não é trivial, diga-se o que se disser. Não se trata apenas de um encontro, mas de um “desvio deliberado”, de uma exortação a sair dos trilhos batidos e a entregar-se ao mundo desconhecido do outro. No extremo oposto do espetro dos obstáculos de vários tipos, o amor intercultural parece uma harmonia de dissemelhanças. Neste contexto, é a emoção do sentimento e o tamborilar do coração que guiam os nossos passos. Neste artigo, descubra como se forja esta alquimia única e enriquecedora.
O encanto da diferença
A alteridade é um importante motor de excitação na vida íntima de um casal intercultural. Mesmo os hábitos ou atitudes mais banais podem suscitar atração no outro. Por exemplo, o tom de voz, certos gestos herdados de outra cultura ou a forma como se penteia o cabelo.
É em situações como estas que as palavras têm menos significado do que a linguagem universal das carícias, dos suspiros e do silêncio ao mesmo tempo. O amor não nasce apesar da diferença, mas sim graças a ela. E por uma boa razão, a diferença cria uma certa distância que intensifica a curiosidade e acende cada vez mais o rastilho do amor.
Cultura intermédia: construir o seu próprio universo
Estar apaixonado para além de todas as considerações culturais implica afastar-se da ideia de escolher lados, em favor da inventividade. Em termos concretos, o casal vai gradualmente ignorando os seus respectivos dogmas e dons para construir um universo híbrido. É um lugar intemporal, mestiço, onde os corpos e os pensamentos aprendem a mover-se em direção uns aos outros.
É um lugar que não tem qualquer fidelidade geográfica para além da mistura de parceiros que o formam. Construímo-lo negociando com ternura e propondo com delicadeza, transformando cada acordo numa fase de criação poética. É neste preciso momento, no turbilhão da fusão, que os parceiros descobrem a sua verdadeira identidade: uma combinação imutável de duas culturas.

Para além da língua materna
Uma das belezas fundamentais do casal intercultural é o esforço para se compreenderem para além das palavras. É claro que, nos casais interculturais, a barreira linguística, geralmente vista como um obstáculo à discussão, pode transformar-se num escudo anti-banalidade. E por uma boa razão: numa situação destas, é preciso ouvir o outro com total empenho.
Melhor ainda, exige concentração em todos os momentos, dando prioridade à emoção nos olhos em detrimento da estrutura das frases. Aprendemos a adivinhar os desejos do outro, a ver o silêncio como um momento de suspiro partilhado. Esta abordagem favorece a solidez do casal e confere um valor especial a cada revelação sentimental.
A indispensável persistência do “Nós” apesar das armadilhas
Dizer que ser um casal intercultural é um rio longo e tranquilo seria uma mentira. De facto, o nosso parceiro pode muitas vezes mudar a sua aparência aos nossos olhos, reflectindo um repensar completo dos sistemas de pensamento que pensávamos serem inerentes a nós próprios. É precisamente este tipo de perturbação que podemos transformar numa fonte de alquimia solidificadora.
De facto, o casal intercultural por excelência é aquele que consegue criar um “nós” infatigável face às incompreensões e/ou julgamentos exteriores. Todos os desafios que ultrapassaram (sociais, familiares, administrativos) têm o efeito de reforçar a sua unidade. Isto torná-los-á mais cúmplices e radiantes ao mesmo tempo.
O amor: apagar as fronteiras
Através daalquimia intercultural, aprendemos que o melhor sentimento de pertença é aquele que reivindicamos como nosso, depois de nos termos unido ao nosso amado. A aceitação da alteridade e a construção de uma cultura híbrida são as chaves para esta unidade.
Através dos caminhos do amor, descobrimos um outro lugar não tão estranho; aprendemos muito sobre nós próprios, sem os preconceitos ligados às nossas origens. Este tipo de escolha resulta num encantamento constante, sobretudo quando temos curiosidade pelo mundo que nos rodeia, no sentido mais lato da palavra.







